.turbilhão de sossegos.

•dezembro 14, 2008 • Deixe um comentário

.minha alma acesa – feito estrela de céu de boca – quer todos os confortos espinhosos dos sossegos tormentosos. quer ter fogo beira-abismo na certeza da queda-vôo. quer fome de sacios. quer gozo de corpo em camadas de outro corpo.

.minha alma de incertezas certeiras – feito manta de nudez – quer aos poucos tudo de uma vez. quer menina e fêmea nos jogos de carne trêmula. quer adiar eternidades (só para viver alardes). quer abrigo de campo vadio. aberto como semente que pulsa árvore dormente.

.minha alma pirata latifundiária – feito solidão habitada – quer guardar entregas sem pressa de escorrer por entre pedras e promessas de para sempre e mais. quer zumbido grito rachando cacos até virar escorregas por onde navegam risos e improvisos.

.alma imantada de cachoeira de fogo . alma alçada em vôo longo e profundo. alma corpo. alma sopro. alma tudo.

.do que não sei.

•agosto 22, 2008 • 1 Comentário

.não posso dizer do silêncio. nem das horas estranhas – quando me perco e sinto que é outro quem me mora. não posso adiar minha imobilidade. nem mover meus dentes quando canto. gostaria de levar o mar comigo depois que sou orla. gostaria que lembrasse de mim alguém de quem agora lembro. gostaria de manter as costas abertas para receber asas. gostaria de cansar de descansos. mas tudo em volta é paz rouca. leveza áspera. farpa suave. e minhas palmas só querem caminhar com outras.

.depois da chuva.

•agosto 9, 2008 • Deixe um comentário

.descansar de olhos fechados. nu de exatos. vestido de imprecisões. estar sobre grama quando as últimas nuvens se distanciam bem devagar. deixar-se escorrer. até onde se pode ser quando todas as partes se sabem de não-saber?.

.andei descobrindo um modo de esquecer de tudo que não me leve pra dançar.

.(o que saberá ela de si quando ouve a chuva?).

.tenho todas as formas de acha-la. por que será que todas as vezes que a alcanço está em outro lugar?.

.também ela chove em mim.

.mas não cessa.

.do sabor do ar do outro.

•junho 21, 2008 • 1 Comentário

.tudo é pouco e não demora para quem vê de fora. é assim talvez para os que de longe seguem o par, entregue que está ao sabor do ar que respiram com todos os sem-fôlegos dos espantos encantos assombros.

.esculturas sentimento nos gestos. olho atento. riso abraço. calor de reconheço.

.se de olhos fechados cada ser desse par – após o rumo percorrido – examina delicadamente dentro de si o ar respirado do outro já pode sonhar novamente e levemente esperar pelo próximo encontro.

.o que querem assim desejar se tudo que há está diante de si quando par?.

.desejam permanência. vizinhança do outro. delícias de nome e gosto.

.desejam respirar.

.silêncio.

•abril 4, 2008 • Deixe um comentário

.vencido. entregue ao aqui como pássaro em plena queda. que parte do que calou exauriu todas as palavras do mundo?. podiam espaços macios entre as vestes manter caindo o que despenca por dentro?. nenhuma lembrança prevaleceu. nenhuma dança assimétrica desmontada de ossos e partituras. nenhuma seta acesa no cimo vulto que traz dentro dos olhos. apenas gosto abismo e lassidões abissais povoando de abandonos todas as horas abortadas.

.morrer pode ser luz?. que pode tocar esse aberto esparramado de medo?. toda vertigem de ser inteiro.

.em cada pedaço.
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*ouvindo “as montanhas”, de madredeus.

.todo tudo que se pode provar.

•março 17, 2008 • Deixe um comentário

.aprender horizonte num amor de asas abertas. sem porteiras que nos caibam. apenas céu e terra e corpos levitantes. o que pode ser melhor que isso?. manter sempre riso e gozo no querer. mandar toda farpa possessiva dar voltas em si mesma até ficar macia e gostosa. saborosa fruta de se comer direto no pé – sem abrir mão das sementes.

.sonhei hoje que amava como nuvem de chuva. que amava brisa nua. que amava entardecer. que amava onda. sonhei hoje que não havia rancor nem fronteira nem tristeza. só nossos passos no resto de mar da orla lindíssima (mãos conectadas corações acesos). lá dentro do amor portas abertas descansei das dores secretas. cumpri meus acordos. esqueci de querer ir embora. só amanhecia de corar no amor sem não.

.acordo para agora com vastidão comendo poros. palavras de voar saindo dos olhos. beijo eternidade fulgás no dizer olá. nem há mais limite no corpo que pode alcançar o que está. e o que não está.

.sou todo de uma só música boa de cantar:

.(som de espuma. chuva morna em noite fria).

.vontade de ser. querer ter. poder ficar.

.sou todo do que se pode sonhar.

.contra a corrente.

•fevereiro 2, 2008 • 3 Comentários

.esperei que viesse mas não veio. quem sabe esqueceu o caminho – enquanto dissipava mãos outras corpos outros olhares outros. quem sabe esperou que eu chamasse novamente. como chamo quase sempre. principalmente quando a tarde cai silenciosa e billie derrete um blues. talvez esteja agora mesmo procurando a minha porta. indecisa entre o que é e o que sonha. será que é ela quem está agora me sonhando o que me sou?.

.apenas flutuo contra a corrente. ela não está e talvez nunca chegue. ou talvez já esteja mas não consiga me ver. ainda que eu a veja em todos os cantos onde me perco de mim.

.ela – minha poesia – não quer mais me dizer porque estou aqui.

.o que posso respirar sem saber?.

.talvez porque chova.

•janeiro 14, 2008 • 1 Comentário

.tu[do] nada em mim.

.entrega.

•janeiro 13, 2008 • Deixe um comentário

.o amor quer tratar feridas de afeto com poemas de olhares acesos. com risos de afago e aventuras de boca.

.o amor quer habitar uma canto de silêncio de corpo. lá onde os fantasmas antigos ainda não lhe souberam. lugar de macios novos nas preguiças domingueiras. reserva de infância brincando escondida – cheia de segredos traquinas.

.o amor quer carrossel de mãos dadas. entrelaço de almas. renda de gente.

.o amor quer despejar cachoeira em cada abraço apertado. no pulso: pulsão. na intensão: intensidade. a amor não quer mais tarde. o amor quer de vários modos. em cada momento: um lindo eleito.

.o amor não tem pressa de ser eterno. quer é seqüência aleatória e assimétrica de descobertas e espantos. de aprendizados e desnorteios. de atos e suspensão.

.o amor não quer ser sábio. o amor quer sabedoria.

.o amor não se busca de olhos fechados. é preciso estar aberto para receber seu corpo no próprio corpo (como deitar-se sobre si mesmo). o amor mora nos paradoxos. é preciso reconhecer na brutalidade suave de suas pétalas a transgressão eleita das fomes sem pressa.

.o amor não se afoga. amor também se prova fôlego e arfar. vive de pronfundidades e superfícies. quem se afoga são expectativas e seus circos de equilíbrios precários. como se afogam pássaros quando não têm pra onde voar.

.o amor está aqui. fim de arco-íris marcado pelo tilintar do tesouro do peito. o amor está em mim. em ti. está no que não soube ao certo mas se achou perfeito. dessas perfeições rodeadas de charmosos desacertos.

.o amor está assim no que se diz e no que se ato. verbo exato do futuro amplo. verbo vasto certo e justo. verbo de se dizer junto: entregar.

.entregar corpo. alma. pensamento.

.o amor é tudo quanto.

.andarilho.

•dezembro 30, 2007 • Deixe um comentário

.acordou janeiro. pesou sobre os ossos atos e imobilidades. sem olhar no verso avançou: poema ante poema. até rumar entre escuros matinais e margear soleira.

.(antes – pouco depois do meio do caminho – ouviu cantos de nascimento. mas seguiu sem curva).

.entrou no fora do quarto quase todo fevereiro. hesitações entre os dedos que já se plantavam no espanto dos turvos da vista. ditirambos dionisíacos o seguiram por um tempo mas não comiam passos. apenas traziam faísca de quando em quando entre segredos de corpo.

.no fim do corredor março já se podia perceber o tamanho dos fardos e das asas que lhe davam esse ar de surreal zepelim ou um sei lá de leveza imensa. compacta leveza. densa como nuvem de chuva que paira. sem deixar chuva sobre a face. só aquele espanto úmido das coisas grandiosas.

.abril-se sem pressa. talvez até parasse à propósito de esperar quem lho rogasse que seguisse adiante. ninguém pediu nada. foi quando respirou umas horas de disciplinas antigas e acertou novamente o passo. permanecia aberto para a passagem das luzes e para os desejos de amor inconfesso que ladeavam as costelas com marcas de pra sempre.

.quando resolveu deixar uns momentos à esmo de maio colibris vagavam por entre os cachos. néctar vista adoçando vejos. escorreu até raiz. vazando flores de aroma intoxicante. foram precisos luares e véus para lembra-lo do destino pretendido.

.estava com os pés mar de junho quando respirou sonetos. quartetos alexandrinos. quadras e haikais. mas logo começou a lhe pagear noite julho. curvas e seixos. amargos e adocicamentos. desmontou astrolábios com beijos siderais.

.soturno silenciou agosto. denso como uma pedra filosofal. profundo. consistente. tardou entre escuros novos. desses de onde se parte para nunca mais e um dia se de novo. ao palavra: se ouvia ventre de concha na sua voz. onde apartou-se do porque. quase não dobrou a esquina do que pensou assim.

.como se fosse assim sempre setembro pintou-lhe os braços com horizonte. caminhou quase sem parar entre as vigas das pétalas promessas que lambiam velocidade com sem número de esquecimentos felizes e destinos novos.

.já era uma cidade seu olhar outubro. com gentes de invenção correndo de um lado para o outro ou nada fazendo ou amando-se entre macios ou digladiando algures ou sonhando aqui e lá. cidade-olhar volante. algaravia de crianças sobre as poças de tristezas abandonadas e empinando pipas-momento em cada céu desenfreado.

.bastou-se novembro e preferiu olhar-vilarejo. menos por desprezo às coisas da vista-urbe e mais por apreço à cálida potência das coisas menores e delicadas. foi nessa delicadeza devastadora que consumou seus planos de viagem. foi onde cravou no sextante nome de ser amado. e também onde secou alforge para caminhar mais brisa.

.difícil de ver-lhe dezembro. tudo se lhe era corpo. os moços andando para o jogo. as moças à rirem-se nas escadas. os velhos amansados nas varandas. as crianças em disparada pelos verdes e cinzas. tudo lhe era. cada coisa dizia de si e de tudo além. foi ficando cada vez mais aberto seu passo. até caber nele toda a vida.

.e seu indo foi se tornando é.