•Dezembro 27, 2007 •
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.está no corpo. sabor e perfume. frêmito rastro devastador de esquecimentos. urgências de palavra e gosto. coleira de tempo sufocando louco espaço rouco. promessa desejada.
.está no poro terremoto-arrepio. eriço grito. chama de palma sonhada subindo pela escada de costelas. achando pouso nas saboneteiras e no dorso. comendo pouco-a-pouco o que resta de resistência.
.está sobre a pele – com vontade de entrar – tudo que há dentro do beijo.
Publicado em .vértebras despertas.
•Dezembro 14, 2007 •
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.a menina que queria ser amada ainda aprende vôo e céu. experimenta o sem fôlego das felicidades novas. batiza fantasmas antigos com nomes de risos e abraços. por isso não tem definidas as cores das asas nem reconhece como seu o destino que a leva para dançar.
.o menino que queria ser amado ainda usa capa de palavras. perambula pela casa com insônias habitadas. confessa silêncios. atiça vontades (como quem brinca de fazer faíscas nas chamas altíssimas). abre a palma para o vento – todas as vezes que os cachos tilintam. por isso não conhece chuva que não lhe possa beijar nem noite que não lhe chame pelo nome em suspiros.
.conta-se que quando a menina que queria ser amada e o menino que queria ser amado se encontraram foi jardim. e de todas as coisas se viu brotar umas flores mui valentes. dessas que não se deixam levar sem que riso lhes pague o seqüestro. conta-se também que desse dia em diante todo impossível foi promovido a desejo eleito (com direito a voto secreto). foi quando as crianças dormiram em paz e os velhos lembraram de tudo que lhes tinha sido lindo em todas as suas vidas. há quem garanta que dalí nasceram novos mundos – onde toda gente pode chegar quando toma sorvete de olhos fechados ou quando faz cafuné num querer permanente.
.por isso é que quem tem por vejo um ser bello – que lhe é precioso – sempre roga aos deuses do benfazejo que no dia exato em que se tenha um momento esperado também seja o dia em que a menina que queria ser amada o menino que queria ser amado estejam lado a lado.
Publicado em .contos de dentro.
•Novembro 10, 2007 •
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.há dias sem verbo. nome permanente caminhando entre dentes. frase mordendo e queimando no meio do fantasma de gosto dança corpo. no meio do beijo: “queres todos os meus pensamentos?”. ser de suor ardendo. se entregando.
.todos. todos os pensamentos. tudo. todos os pensamentos silêncios imperfeições. todas as iras. nefastas ruínas comendo de destroços a delicadeza mais linda.
.que verbos faltam para que a luz dos poros refaçam sexos textos?.
.escorre do poro – letra a letra – a hora que nunca mais será.
.é tudo pedra se não queres sonhar-desejar.
.lá fora ainda nem sequer dia nasceu. sem palavras se fecham todas as portas. trancado silêncio. não se pode respirar. nem deixar de pensar (àqueles que foram entregues sem medida. sem métrica. sem retorno). pensamentos sentimentos. para se sentir em silêncio. até a espuma tomar todo o ar.
.permanecer sem quem pele se leia. palavra letra vencidas de esperar.
.quantos pensamentos terá pra dar?.
Publicado em .vértebras despertas.
•Novembro 2, 2007 •
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.’te amo’ não disse. dirá?. letras há tempos já incrustadas no lábio. beira de trampolim. cume faísca querendo ser ar. cruzava pelo ser amado com olhos vaga-lume. corpo de setas todas terminando nas saboneteiras. nuca. cóccix. boca. radar de vista rastreando gestos e minúcias.
.nas conversas – intermináveis e saborosas – mais atentos identificariam num canto dos fonemas tremor secreto. rubor de voz. desconcertos convocados. quase lágrima no dizer.
.’te amo’ não disse. dirá?. letras saltando do meio do parênteses cravado no peito. atiço de gota em sedento. rumor de grão em faminto. sonho de colo em exausto. quando sozinho diz nome (sussurro quase). construindo de vontades presença e acesso. que logo se desfaz no ar.
.é dos que acordam no meio das trevas noturnas e caminham pela casa. pontas dos dedos escorrendo pelo corredor. olhos atados na cegueira fingida. jogo de estar. é dos que se reiventam nas eminentes madrugadas. dos que realizam desejos no hiato entre atos. dos que sempre. dos que agora. dos que sim. para quando a madrugada chegar pôr de volta na caixinha do cárdio músculo todo o carrossel extasiante pintado no escuro.
.’te amo’ não disse. dirá?.
Publicado em .vértebras despertas.
•Outubro 17, 2007 •
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.sabia das delicadezas dos pactos mínimos. quando amanhece nas coisas simples: café entre pares e risos / menino entretido em jogo próprio / conversa lenta de afetos nos penumbrosos de casa antiga / festa diária dos bichos em cada retorno. no entanto, também trazia o mesmo cuidado da voz dedicada ao apelo emergente no prumo do cabelo e na escolha das vestes. gosta de ser mulher a moça. mais: gosta das mulheres. dos seus humores circulares e suas delicadezas devastadoras. das suas graças e dos seus abismos noturnos e lunares. do assombro diante da cega e podre fome de poder do mundo masculino e rude. que poder seria maior que o da consagração do justo bom bello fértil pleno conectado?.
.logo quando soube das coisas dela pensou: está desinventando. obliterando o modelo de mulher que lhe diziam uns poucos homens que inventaram musas pop e suas equivocadas transgressões permitidas. lança por terra a força dos faustos faunos ao abrir-lhes novas portas libertinas. provoca seus apetites menores apontando alvos. horizonte pleno contando do possível no dentro das caixas.
.agora, anda entre frestas internas. montando sua existência sobre arcos de priscas eras. procura e perde. erra e acerta. constroe e desmonta. mas mantém inteira a forma bella de mulher que é. sem outra força que não a dela.
.traça o poeta com linhas leves e densas – a bella. que gestos e atos a podem saudar?.
.aplausos.
Publicado em .nome de mulher.